(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)
“A família não discute em público. Mas faz isso na frente de outras pessoas (funcionários e aliados), o que acaba levando as brigas a serem expostas e a envolverem novas figuras”.
Vem de um antigo auxiliar bolsonarista essa explicação sobre os vazamentos e o surgimento desses e outros “Casos de Família”. Numa conversa ao telefone, ele me explicou que a convivência íntima desses clãs com pessoas relacionadas ao poder, sem laços sanguíneos, contribui para levar os problemas da esfera privada para a pública.
Tanto os Bolsonaro quanto os Lula da Silva cultivam o hábito.
Antigo ajudante de ordens da Presidência, Mauro Cid se tornou um ente bolsonarista. Ele tinha até funções na provisão do lar de Jair, instalado no Palácio do Alvorada. O militar pagava as contas pessoais de Michelle Bolsonaro, segundo ela mesma: “A manicure, ou cabeleireiro, um dinheiro para o lanche das crianças (…)”.
Flávio Bolsonaro mantinha relação similar com Fabrício Queiroz, figura central no esquema de “rachadinhas” identificado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro no antigo gabinete do parlamentar. Nas transações rastreadas pela promotoria, o auxiliar quitou mensalidades da escola das filhas de Flávio, e ainda transferiu R$25 mil para Fernanda Antunes. Quando os pagamentos vieram à tona, Flávio enfrentou a cobrança da opinião pública e também uma pressão caseira: a mulher se sentia exposta.
Quando deixou a prisão da Lava-Jato, em 2019, Lula trouxe para perto Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Ele tem formação na Sociologia, como Janja, e foi parte da vigília “Lula Livre” no Paraná, enquanto o político estava encarcerado. A lealdade, somada à experiência de Marcola na condução da agenda de Lula, fez com que ele fosse escolhido para a chefia de gabinete do presidente: o braço-direito do petista.
Em meio à relação profissional, a conexão de Lula com Marcola era quase familiar.
Durante a pandemia, entre a prisão e a volta à Presidência, Lula fechou-se em casa com Janja, em São Bernardo. O casal não estava só. Marcola e a família foram morar próximos e, durante o isolamento social, entre 2021 e 2022, estavam entre o círculo restrito de pessoas com acesso ao petista. Todos conviviam de maneira intensa, com direito até a rusgas aqui e ali.
Já enquanto chefe de gabinete, a partir de 2023, era Marcola quem muitas vezes emprestava o celular a Lula — o presidente não tem um (saiba mais). O chefe de gabinete também era responsável por opinar nos compromissos presidenciais do petista (território disputado por Janja, aliás). Em janeiro de 2025, a concorrida rotina presidencial abriu até uma rara brecha para celebrar o aniversário de Marcola, no Palácio do Planalto. O contexto posiciona o auxiliar no âmago do convívio de Lula.
Nasce daí o potencial destrutivo da genealogia interconectada ao poder. Com a delação de Mauro Cid, entre outras provas, Jair Bolsonaro está condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Flávio, se o caso das “rachadinhas” não tivesse acabado em pizza, teria respondido pelas práticas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Marcola, por sua vez, acaba de aparecer no mesmo rolo que levou Lulinha a entrar na mira do Supremo.
O auxiliar de Lula durante os últimos quatro anos recebeu, conforme investigou a Polícia Federal (PF), R$249 mil da lobista Roberta Luchsinger. Ela é ligada ao também lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Marcola tem se defendido afirmando que o montante teria sido referente a um “empréstimo pessoal”, quitado recentemente. Só que o colunista Lauro Jardim acaba de revelar no Globo que não parou por aí. Roberta comprou duas joias por R$9,2 mil para Marcola em 2024. A destinação dos presentes? A família do próprio Marcola, no Dia das Mães daquele ano.
(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)



