Palanque #2: Por que as famílias políticas ganham tanta atenção?
Palanque recorre à psicanálise e aos bastidores genealógicos para entender o magnetismo pelos Lula da Silva e pelos Bolsonaro
_PRÓLOGO
O que você vai ler nesta edição
Janja, Michelle Bolsonaro e o início da campanha eleitoral • Freud explica: por que as famílias políticas interessam tanto? • No clã Bolsonaro, a origem do desgaste de Flávio com a madrasta • Entre os Lula da Silva, o retorno da “estrela de Marisa Letícia” • O novo prazo judicial para Janja (e o que o Corinthians tem a ver com isso) • Auxiliares viram família e, então, problema • Datas e conteúdos úteis
“Que Deus te guarde, Lula guerreiro / Que a história te coloque no lugar certo / Não precisa de coroa, nem de trono / Seu maior título é ser amado pelo povo / Tapete vermelho pro filho do Nordeste / Tapete vermelho pra quem o povo elege (…)”.
De microfone na mão, Janja subiu ao palco do estádio da Vila Euclides em São Bernardo do Campo (SP) no último domingo, 16 de agosto, para cantar os versos acima. Eles fazem parte de “Tapete Vermelho”, jingle em que a campanha de Lula aposta, já no ritmo da estreia, para aproximá-lo do eleitor evangélico na busca pela reeleição. Segundo a Quaest, 43% deste grupo apoia o adversário Flávio Bolsonaro.
No mesmo dia, em Brasília, Michelle Bolsonaro se lançava candidata a senadora pelo Distrito Federal, a primeira empreitada eleitoral da vida dela. O evento em Ceilândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília, coincidiu com a expressiva ausência dela no lançamento da campanha do enteado, Flávio, em Copacabana, no Rio de Janeiro. A guerra vivida entre os dois também esbarra no eleitorado religioso (e feminino).
Protagonizado por Janja e Michelle, esse início da campanha das eleições 2026 tem como pano de fundo indispensável o cerne familiar das duas figuras políticas mais carismáticas do Brasil hoje: Lula e Jair Bolsonaro.
A árvore genealógica de cada um inclui não só mulheres com veia política, como também filhos no poder (no caso bolsonarista) ou que dele vivem muito próximos (no caso lulista). Por que conhecemos (e consumimos) tantos detalhes dessas famílias?
A segunda edição de Palanque tenta responder a essa pergunta, no mesmo compasso em que se aprofunda nas histórias vividas no último ciclo eleitoral, de 2022 para cá, por esses dois grupos familiares. Os Lula da Silva e os Bolsonaro. A intenção é esmiuçar o reflexo político dos laços de parentesco, bem como dos conflitos (privados e, depois, públicos) que surgem a partir deles. Boa leitura!
_POLÍTICA NO DIVÃ
“Muitas vezes, a mulher está na posição de quem move a história (de uma família). Ela incomoda de um jeito particular, ligado a uma expectativa antiga do patriarcado. Nas famílias políticas, espera-se que a mulher seja o elemento de coesão. Ela é a esposa, primeira-dama, apaziguadora e está sempre sorrindo”.
É por meio da construção dessa imagem que a psicanalista Mayra Siqueira, entrevistada no Palanque, nos explica por que prestamos tanta atenção às famílias políticas. E também o motivo para olharmos para elas pela ótica das mulheres. Ela é jornalista formada pela PUC, além de ter feito pós-graduação em Ciência Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Pontos de contato suficientes para ajudar a traduzir o foco coletivo em Janja e Michelle:
“Quando essa figura perfeita — bela, recatada e do lar (manchete de 2016 sobre Marcela Temer, então prestes a se tornar primeira-dama) decide agir e ocupar um espaço próprio, ela rompe com o que estava sendo esperado dela. O rompimento com a expectativa gera, na sequência, uma reação”, diz Mayra.
Junto do que esperamos de figuras femininas, temos em nós, segundo Mayra, uma série de convicções sobre as famílias: a nossa e a dos outros, incluindo os políticos.
Por quê? É a primeira instituição com a qual temos contato. O que desenvolvemos no seio dela, de acordo com a psicanalista, é reproduzido em outros ambientes. Quais são eles? A escola, o trabalho, o casamento e as amizades — alguns exemplos.
Das famílias políticas, esperamos a repetição da lógica com a qual fomos acostumados em casa. Fazemos uma projeção e, mesmo sem perceber, nos identificamos. Daí a demanda por informações detalhadas (nas redes e no noticiário) e, ainda, a frustração.
“Como se sentem especialistas em famílias, as pessoas tentam mensurar a capacidade dos políticos por meio do contexto familiar. Como se, para estar apta a comandar a coisa pública, uma autoridade devesse primeiro gerenciar a própria família. Há ainda um certo sadismo em assistir às famílias políticas desmoronando em público. Reforça a sensação de que, como nós, eles também têm conflitos”, afirma Mayra.
Essa atenção pública às famílias políticas, também naturalmente, é reforçada pelas redes sociais e a sensação de que estamos mais próximos das famílias políticas. Elas, aliás, aproveitam toda esta atenção para faturar em audiência e engajamento.
“Antes, víamos esses grupos em porta-retratos oficiais ou propagandas eleitorais na TV. Agora, acessamos os conteúdos deles nas redes, na mesma tela em que discutimos os problemas das nossas próprias famílias”, explica Mayra.
O que Sigmund Freud diria sobre o fenômeno? Na opinião de Mayra, o pai da psicanálise sequer acharia o interesse público pelas famílias políticas tão fenomenal assim. “Para Freud, a gente nunca supera de verdade a família e sua triangulação inicial (pai, mãe e filho/filha). Levamos isso para outros cenários. Um eleitor fascinado pela família de um político? Imagino que Freud não acharia tão impressionante”.
Para entender a conexão entre nossa psique e a família, Mayra estudou Freud. Ele, por sua vez, recorreu à mitologia grega para fundamentar muitos de seus conceitos.
Segundo Mayra, os mitos “não envelhecem” e, embora tenham “pano de fundo antigo”, representam “dinâmicas sempre atuais”, principalmente para as famílias ocidentais. Daí o aspecto cíclico, mesmo em 2026.
A pedido da newsletter, a psicanalista listou três mitos que se relacionam, de maneira alegórica, com as famílias políticas mais observadas pelos brasileiros hoje. São eles: a Casa dos Atridas (ou Casa de Atreu); Édipo e o de Cronos. As narrativas reúnem disputas sangrentas entre figuras com laços de parentesco. Também envolvem um senso de predestinação: personagens dificilmente escapam de um destino traçado assim que nascem numa determinada família, batizados com determinado sobrenome.
O papo completo, em formato de perguntas & respostas, será publicado em breve.
_PRETÉRITO IMPERFEITO
Feridas familiares viram feridas políticas quando pessoas com laços de parentesco escolhem a vida pública — a descrição é de Mayra Siqueira, sob a perspectiva da psicanálise. O movimento reflete o clã Bolsonaro, desde a gênese.
Terceira mulher de Jair Bolsonaro, com quem se casou há quase duas décadas, Michelle sempre enfrentou resistência dos enteados Flávio, Eduardo e Carlos.
Os três são filhos de Rogéria, a primeira mulher com quem o ex-presidente se casou. Ele a lançou na política (via Rio de Janeiro, berço do poderio bolsonarista), mas optou por boicotá-la após a separação. Em vez da ex-mulher, passou a apostar politicamente num dos filhos. Depois de Rogéria, veio Ana Cristina Valle, com quem Bolsonaro pai teve Jair Renan. Da relação com Michelle, nasceu a caçula, 15 anos atrás.
Carlos (o Carluxo), hoje candidato ao Senado pelo PL em Santa Catarina, costumava ser o filho mais vocal contra Michelle (ele é crítico à diferença de 27 anos entre ela e o marido, segundo a própria ex-primeira-dama). Mas foi com Flávio, o mais velho, que um desgaste familiar acabou se tornando flagrantemente político.
A confusão entre madrasta e enteado envolve o relacionamento dele com a dentista Fernanda Antunes. Casados há 16 anos, eles têm duas filhas. Em 2022, o casal atravessou uma crise conjugal num momento nevrálgico, justamente enquanto o clã tentava reeleger Jair na Presidência. Michelle “meteu a colher”, em nome do sério apreço aos valores evangélicos em que acredita e que prega. A situação ecoou até 2026.
Num episódio similar, durante o mandato presidencial de Jair, ela agiu para afastá-lo de Magno Malta, senador pelo PL do Espírito Santo. Malta era “o vice dos sonhos” de Bolsonaro para as eleições 2018 (nas palavras do próprio ex-presidente). Ele levou o líder político às igrejas evangélicas em busca de apoio naquele pleito. Chegou a ser cogitado para se tornar ministro, mas acabou preterido e passou meses na “geladeira”.
Motivo? Uma movimentação da própria Michelle, conforme indicou a repórter Jussara Soares, na época, num texto para O Globo.
Em 2019, Malta se divorciou da então deputada federal Lauriete, do PSC no Espírito Santo. Ela, cantora e compositora gospel, afirmou à imprensa capixaba que havia se separado “em virtude do relacionamento ter ferido valores importantes (…)”. Michelle, num silêncio público, comprou o barulho de Lauriete. Malta ficou, então, à deriva.
Diferentemente de Malta e Lauriete, Flávio e Fernanda se reconciliaram. A relação entre enteado e madrasta, permaneceu rachada.
Nas eleições daquele 2022, Michelle testou nas urnas suas primeiras articulações pelo PL. Ajudou a eleger quase todos os nomes que apoiou, conforme observou a repórter Luísa Marzullo, do Globo. O capital político a levou à presidência do PL Mulher em 2023. Com Bolsonaro já vislumbrando a prisão pelos atos golpistas, Michelle ganhou mais e mais destaque, sempre embalada pelo entusiasmo do presidente da sigla, Valdemar Costa Neto. Passou, inclusive, a ter o nome cogitado entre presidenciáveis.
Foi aí que o tamanho dela colidiu com Flávio.
Graças à capilaridade do PL Mulher, e a experiência bem-sucedida em 2022, ela passou a costurar apoios do partido nos estados. Para o Ceará, por exemplo, Michelle queria lançar ao Senado a candidata Priscila Costa. E também rechaçava a aliança com Ciro Gomes, hoje no PSDB, para o governo do estado. Flávio, no entanto, articulava justamente este movimento. Hoje, o PL está fechado com Ciro. E a indicada de Michelle, Priscila, não vai concorrer a senadora, mas a deputada federal.
A derrota de Michelle no caso cearense foi política. Mas tocou no conflito familiar.
Em junho, enquanto o país parava para assistir a Seleção Brasileira jogar contra a Escócia na Copa do Mundo, a ex-primeira-dama publicou um vídeo em que, por mais de dez minutos, Flávio era exposto e criticado. Ela se disse humilhada e maltratada pelo enteado. Na sequência, após reações internas no partido, resolveu deixar o comando do PL Mulher. Ficou só com a candidatura a senadora.
Em mais de uma oportunidade, Michelle usou mensagens enigmáticas para se referir a Flávio. “Eu sei mais do que eles pensam”, disse ela já naquele primeiro vídeo.
Num outro momento, Michelle escreveu: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”. Ela compartilhava uma publicação em que o ex-governador (e candidato) Anthony Garotinho, do Republicanos, ventilava um suposto — e nunca divulgado — vídeo do banqueiro Daniel Vorcaro com “homens que defendem a família” e mulheres nuas.
Michelle guarda, mesmo, sério apreço aos valores evangélicos em que acredita e que prega. Foi assim em 2022, quando o desgaste familiar com Flávio evoluiu. Seguiu assim em 2026, quando o conflito se tornou político e veio a público, arriscando a imagem dele com o eleitorado feminino. A rejeição é alta: mesmo após o senador ter pedido desculpas a Michelle, 55% das mulheres dizem à Quaest que não vão votar nele.
_PROBLEMA COSTURADO À MÃO
Cada família com as suas discórdias, inclusive os Lula da Silva.
Diante do estádio da Vila Euclides, Janja acenou não só aos evangélicos mas às pessoas que cultivaram, por anos, apreço pela figura de Marisa Letícia. O grupo de admiradores inclui militantes fervorosos do PT e também os quatro filhos do casamento dela com Lula. Marisa morreu em 2017, aos 66 anos, vítima de um AVC.
Operária numa fábrica de chocolates (e, depois, inspetora em um colégio infantil), Marisa conheceu Lula no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo. A organização é berço do lulismo e serviu como pano de fundo de momentos marcantes para Lula: da greve geral, que ele liderou em 1979, até a derrocada na Operação Lava-Jato em 2018 — ele saiu do sindicato direto para os 580 dias na prisão.
A criação do PT atravessou tanto o sindicato quanto o relacionamento de Lula e Marisa. Os dois, viúvos quando se conheceram, foram o segundo cônjuge um do outro. Tornaram-se parceiros também na política.
Disse ela ao site da campanha de Lula à primeira reeleição, em 2006:
“Eu tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo. A gente não tinha núcleo, não tinha nada. Minha casa era o centro. Começamos então a estampar camisetas para arrecadar fundos. Vendíamos uma para comprar duas. Estampava a estrelinha, vendia, comprava mais. Foi assim que começou o PT (em 1980, na esteira daquela greve)”.
Resgatada por Marisa, essa memória petista costumava brilhar, até que caiu do céu feito estrela cadente.
Em fevereiro de 2024, quando o PT comemorava 44 anos, o fato surgiu num texto de Lula dedicado à Fundação Perseu Abramo (braço teórico do partido). No site da instituição, o presidente começava dizendo: “No começo, era só um retalho de pano vermelho, que a Marisa pegou e costurou uma estrela branca por cima (…)”. Quando o texto foi parar nas redes sociais dele, no entanto, a mensagem mudou: “No começo, era só um retalho de pano vermelho com uma estrela branca por cima (…)”.
Marisa foi retirada da história. No petismo, a responsabilidade recaiu sobre Janja.
A atual primeira-dama travava um cabo de guerra com auxiliares pelo controle das redes do marido — revelei o movimento em março de 2024 e a revista piauí, com apuração de Ana Clara Costa, trouxe mais detalhes. Aquela busca por controle lembra, inclusive, a recente investida de Janja contra o app Discord: ela pede a derrubada da plataforma no Brasil para proteger crianças do risco de acessá-lo.
“Infelizmente têm acontecido algumas coisas estranhas!”. Foi assim que Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha, saiu em defesa de Marisa e da estrela que ela costurou. A mensagem foi publicada por ele nas redes sociais, alertando para o sumiço da ex-primeira-dama no texto da rede do pai. “A história da minha mãe ninguém apaga não!”, escreveu Lulinha. Hoje, ele é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de tráfico de influência no governo federal durante a atual gestão do pai.
A equipe de Lula fez uma correção na sequência daquele episódio, dois anos atrás, e incluiu Marisa de volta no texto biográfico do PT publicado pelo presidente. À época, Janja mencionava o ocorrido para aumentar a pressão pelo controle das redes de Lula: acreditava que um time ligado a ela, em vez do governo, poderia prevenir crises como aquela. Agora, na Vila Euclides, a primeira-dama atuou, desta vez publicamente, para tentar se posicionar na contramão do apagamento de Marisa. A fala é inédita:
“A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa; foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, disse a primeira-dama no domingo, 16 de agosto.
Apesar do passo rumo à paz, a cisma familiar com Janja inclui outros estresses.
No Carnaval deste ano, Mônica Bergamo descreveu na Folha de S.Paulo uma discussão da primeira-dama com a enteada Lurian, filha de Lula. O presidente estava sendo homenageado em plena Sapucaí naquela noite. Para além do post envolvendo a memória de Marisa, Lulinha já escreveu impropérios sobre a madrasta. O caso foi publicado por Paulo Cappelli, no Metrópoles, em 2024: o caçula teria usado um xingamento machista para se referir a Janja, além do rótulo de “oportunista”.
_PRECONCEITO DE GÊNERO
Janja passou os últimos quatro anos tentando reparar judicialmente xingamentos tão ofensivos quanto o que foi proferido por Lulinha.
Um dos processos que ela move contra detratores acaba de avançar no Tribunal de Justiça de São Paulo. Manoel Evangelista, que é conselheiro do Corinthians, tenta fazer um acordo para encerrar a ação em que a primeira-dama pede R$50 mil em danos morais por ter sido ofendida de forma misógina nas redes sociais. Não é a primeira vez que a defesa do homem tenta evitar que o caso vá a julgamento.
A Corte paulista acaba de conceder 15 dias para que Janja responda à tratativa.
_PROXIMIDADE INDISCRETA
“A família não discute em público. Mas faz isso na frente de outras pessoas (funcionários e aliados), o que acaba levando as brigas a serem expostas e a envolverem novas figuras”.
Vem de um antigo auxiliar bolsonarista essa explicação sobre os vazamentos e o surgimento desses e outros “Casos de Família”. Numa conversa ao telefone, ele me explicou que a convivência íntima desses clãs com pessoas relacionadas ao poder, sem laços sanguíneos, contribui para levar os problemas da esfera privada para a pública.
Tanto os Bolsonaro quanto os Lula da Silva cultivam o hábito.
Antigo ajudante de ordens da Presidência, Mauro Cid se tornou um ente bolsonarista. Ele tinha até funções na provisão do lar de Jair, instalado no Palácio do Alvorada. O militar pagava as contas pessoais de Michelle Bolsonaro, segundo ela mesma: “A manicure, ou cabeleireiro, um dinheiro para o lanche das crianças (…)”.
Flávio Bolsonaro mantinha relação similar com Fabrício Queiroz, figura central no esquema de “rachadinhas” identificado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro no antigo gabinete do parlamentar. Nas transações rastreadas pela promotoria, o auxiliar quitou mensalidades da escola das filhas de Flávio, e ainda transferiu R$25 mil para Fernanda Antunes. Quando os pagamentos vieram à tona, Flávio enfrentou a cobrança da opinião pública e também uma pressão caseira: a mulher se sentia exposta.
Quando deixou a prisão da Lava-Jato, em 2019, Lula trouxe para perto Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Ele tem formação na Sociologia, como Janja, e foi parte da vigília “Lula Livre” no Paraná, enquanto o político estava encarcerado. A lealdade, somada à experiência de Marcola na condução da agenda de Lula, fez com que ele fosse escolhido para a chefia de gabinete do presidente: o braço-direito do petista.
Em meio à relação profissional, a conexão de Lula com Marcola era quase familiar.
Durante a pandemia, entre a prisão e a volta à Presidência, Lula fechou-se em casa com Janja, em São Bernardo. O casal não estava só. Marcola e a família foram morar próximos e, durante o isolamento social, entre 2021 e 2022, estavam entre o círculo restrito de pessoas com acesso ao petista. Todos conviviam de maneira intensa, com direito até a rusgas aqui e ali.
Já enquanto chefe de gabinete, a partir de 2023, era Marcola quem muitas vezes emprestava o celular a Lula — o presidente não tem um (saiba mais). O chefe de gabinete também era responsável por opinar nos compromissos presidenciais do petista (território disputado por Janja, aliás). Em janeiro de 2025, a concorrida rotina presidencial abriu até uma rara brecha para celebrar o aniversário de Marcola, no Palácio do Planalto. O contexto posiciona o auxiliar no âmago do convívio de Lula.
Nasce daí o potencial destrutivo da genealogia interconectada ao poder. Com a delação de Mauro Cid, entre outras provas, Jair Bolsonaro está condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Flávio, se o caso das “rachadinhas” não tivesse acabado em pizza, teria respondido pelas práticas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Marcola, por sua vez, acaba de aparecer no mesmo rolo que levou Lulinha a entrar na mira do Supremo.
O auxiliar de Lula durante os últimos quatro anos recebeu, conforme investigou a Polícia Federal (PF), R$249 mil da lobista Roberta Luchsinger. Ela é ligada ao também lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Marcola tem se defendido afirmando que o montante teria sido referente a um “empréstimo pessoal”, quitado recentemente. Só que o colunista Lauro Jardim acaba de revelar no Globo que não parou por aí. Roberta comprou duas joias por R$9,2 mil para Marcola em 2024. A destinação dos presentes? A família do próprio Marcola, no Dia das Mães daquele ano.
_PONTEIRO
Ajuste o seu e não perca o timing eleitoral
_O voto em trânsito só pode ser solicitado até amanhã, 20 de agosto, via Autoatendimento da Justiça Eleitoral. É a alternativa para quem vai estar fora do domicílio eleitoral durante as eleições (válida só para o território nacional).
_Lula e Flávio Bolsonaro estarão no Rio de Janeiro no sábado, 22 de agosto, em dois mega eventos de campanha. O petista reunirá aliados no Estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste da cidade. O senador, por sua vez, escolheu o Maracanãzinho, na Zona Norte, para arregimentar seu público.
_O primeiro debate eleitoral da temporada está marcado para domingo, 23 de agosto, na Band. Lula, Flávio, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) foram convidados. Confira mais datas de debates.
_A propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio começa em 28 de agosto.
_PRATELEIRA
Tire daqui mais conteúdos interessantes
_Guilherme Caetano, repórter de política do Estadão, é um dos “repórteres carrapatos” de Flávio Bolsonaro nestas eleições. Ou seja: vai passar as próximas semanas grudado no senador, garantindo que o público saiba tudo que ele está fazendo (Lula também tem um time o acompanhando). Caetano, além de publicar textos no jornal, produz vídeos interessantíssimos com análises políticas e observações afiadas. No ato bolsonarista no Rio, no último domingo, 16 de agosto, por exemplo, teve de berrante até confusão com corredores de rua. Vale assistir.
_Não entendeu nada sobre o episódio (já solucionado) em que Flávio acabou filiado ao Missão, partido de Renan Santos (e do Movimento Brasil Livre, o MBL), em vez do PL? Pedro Figueiredo, repórter da GloboNews e da TV Globo, conseguiu resumir tudo — incluindo as falhas dos dois partidos — em práticos 2min04s. Recomendo.
_Editora do Palanque, a jornalista Julia Moreira Fraga acaba de retomar sua própria newsletter. “The Cool Hunch” é voltada para curadoria e estilo. Nela, Julia propõe reflexões diversas. A da vez é sobre o que significa ser cool. Bom para fugir da política.
_PALANQUE é uma newsletter dedicada às eleições de 2026, assinada pelo repórter independente João Paulo Saconi (autor de ‘Vocês da Imprensa’) e editada pela jornalista Julia Moreira de Fraga, que também assina a newsletter de curadoria The Cool Hunch. O conteúdo também está em posts no Instagram e no TikTok.









