(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)
Cada família com as suas discórdias, inclusive os Lula da Silva.
Diante do estádio da Vila Euclides, Janja acenou não só aos evangélicos mas às pessoas que cultivaram, por anos, apreço pela figura de Marisa Letícia. O grupo de admiradores inclui militantes fervorosos do PT e também os quatro filhos do casamento dela com Lula. Marisa morreu em 2017, aos 66 anos, vítima de um AVC.
Operária numa fábrica de chocolates (e, depois, inspetora em um colégio infantil), Marisa conheceu Lula no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo. A organização é berço do lulismo e serviu como pano de fundo de momentos marcantes para Lula: da greve geral, que ele liderou em 1979, até a derrocada na Operação Lava-Jato em 2018 — ele saiu do sindicato direto para os 580 dias na prisão.
A criação do PT atravessou tanto o sindicato quanto o relacionamento de Lula e Marisa. Os dois, viúvos quando se conheceram, foram o segundo cônjuge um do outro. Tornaram-se parceiros também na política.
Disse ela ao site da campanha de Lula à primeira reeleição, em 2006:
“Eu tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo. A gente não tinha núcleo, não tinha nada. Minha casa era o centro. Começamos então a estampar camisetas para arrecadar fundos. Vendíamos uma para comprar duas. Estampava a estrelinha, vendia, comprava mais. Foi assim que começou o PT (em 1980, na esteira daquela greve)”.
Resgatada por Marisa, essa memória petista costumava brilhar, até que caiu do céu feito estrela cadente.
Em fevereiro de 2024, quando o PT comemorava 44 anos, o fato surgiu num texto de Lula dedicado à Fundação Perseu Abramo (braço teórico do partido). No site da instituição, o presidente começava dizendo: “No começo, era só um retalho de pano vermelho, que a Marisa pegou e costurou uma estrela branca por cima (…)”. Quando o texto foi parar nas redes sociais dele, no entanto, a mensagem mudou: “No começo, era só um retalho de pano vermelho com uma estrela branca por cima (…)”.
Marisa foi retirada da história. No petismo, a responsabilidade recaiu sobre Janja.
A atual primeira-dama travava um cabo de guerra com auxiliares pelo controle das redes do marido — revelei o movimento em março de 2024 e a revista piauí, com apuração de Ana Clara Costa, trouxe mais detalhes. Aquela busca por controle lembra, inclusive, a recente investida de Janja contra o app Discord: ela pede a derrubada da plataforma no Brasil para proteger crianças do risco de acessá-lo.
“Infelizmente têm acontecido algumas coisas estranhas!”. Foi assim que Luís Cláudio Lula da Silva, o Lulinha, saiu em defesa de Marisa e da estrela que ela costurou. A mensagem foi publicada por ele nas redes sociais, alertando para o sumiço da ex-primeira-dama no texto da rede do pai. “A história da minha mãe ninguém apaga não!”, escreveu Lulinha. Hoje, ele é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de tráfico de influência no governo federal durante a atual gestão do pai.
A equipe de Lula fez uma correção na sequência daquele episódio, dois anos atrás, e incluiu Marisa de volta no texto biográfico do PT publicado pelo presidente. À época, Janja mencionava o ocorrido para aumentar a pressão pelo controle das redes de Lula: acreditava que um time ligado a ela, em vez do governo, poderia prevenir crises como aquela. Agora, na Vila Euclides, a primeira-dama atuou, desta vez publicamente, para tentar se posicionar na contramão do apagamento de Marisa. A fala é inédita:
“A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa; foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, disse a primeira-dama no domingo, 16 de agosto.
Apesar do passo rumo à paz, a cisma familiar com Janja inclui outros estresses.
No Carnaval deste ano, Mônica Bergamo descreveu na Folha de S.Paulo uma discussão da primeira-dama com a enteada Lurian, filha de Lula. O presidente estava sendo homenageado em plena Sapucaí naquela noite. Para além do post envolvendo a memória de Marisa, Lulinha já escreveu impropérios sobre a madrasta. O caso foi publicado por Paulo Cappelli, no Metrópoles, em 2024: o caçula teria usado um xingamento machista para se referir a Janja, além do rótulo de “oportunista”.
(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)


