(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)
Feridas familiares viram feridas políticas quando pessoas com laços de parentesco escolhem a vida pública. O movimento reflete o clã Bolsonaro, desde a gênese.
Terceira mulher de Jair Bolsonaro, com quem se casou há quase duas décadas, Michelle sempre enfrentou resistência dos enteados Flávio, Eduardo e Carlos.
Os três são filhos de Rogéria, a primeira mulher com quem o ex-presidente se casou. Ele a lançou na política (via Rio de Janeiro, berço do poderio bolsonarista), mas optou por boicotá-la após a separação. Em vez da ex-mulher, passou a apostar politicamente num dos filhos. Depois de Rogéria, veio Ana Cristina Valle, com quem Bolsonaro pai teve Jair Renan. Da relação com Michelle, nasceu a caçula, 15 anos atrás.
Carlos (o Carluxo), hoje candidato ao Senado pelo PL em Santa Catarina, costumava ser o filho mais vocal contra Michelle (ele é crítico à diferença de 27 anos entre ela e o marido, segundo a própria ex-primeira-dama). Mas foi com Flávio, o mais velho, que um desgaste familiar acabou se tornando flagrantemente político.
A confusão entre madrasta e enteado envolve o relacionamento dele com a dentista Fernanda Antunes. Casados há 16 anos, eles têm duas filhas. Em 2022, o casal atravessou uma crise conjugal num momento nevrálgico, justamente enquanto o clã tentava reeleger Jair na Presidência. Michelle “meteu a colher”, em nome do sério apreço aos valores evangélicos em que acredita e que prega. A situação ecoou até 2026.
Num episódio similar, durante o mandato presidencial de Jair, ela agiu para afastá-lo de Magno Malta, senador pelo PL do Espírito Santo. Malta era “o vice dos sonhos” de Bolsonaro para as eleições 2018 (nas palavras do próprio ex-presidente). Ele levou o líder político às igrejas evangélicas em busca de apoio naquele pleito. Chegou a ser cogitado para se tornar ministro, mas acabou preterido e passou meses na “geladeira”.
Motivo? Uma movimentação da própria Michelle, conforme indicou a repórter Jussara Soares, na época, num texto para O Globo.
Em 2019, Malta se divorciou da então deputada federal Lauriete, do PSC no Espírito Santo. Ela, cantora e compositora gospel, afirmou à imprensa capixaba que havia se separado “em virtude do relacionamento ter ferido valores importantes (…)”. Michelle, num silêncio público, comprou o barulho de Lauriete. Malta ficou, então, à deriva.
Diferentemente de Malta e Lauriete, Flávio e Fernanda se reconciliaram. A relação entre enteado e madrasta, permaneceu rachada.
Nas eleições daquele 2022, Michelle testou nas urnas suas primeiras articulações pelo PL. Ajudou a eleger quase todos os nomes que apoiou, conforme observou a repórter Luísa Marzullo, do Globo. O capital político a levou à presidência do PL Mulher em 2023. Com Bolsonaro já vislumbrando a prisão pelos atos golpistas, Michelle ganhou mais e mais destaque, sempre embalada pelo entusiasmo do presidente da sigla, Valdemar Costa Neto. Passou, inclusive, a ter o nome cogitado entre presidenciáveis.
Foi aí que o tamanho dela colidiu com Flávio.
Graças à capilaridade do PL Mulher, e a experiência bem-sucedida em 2022, ela passou a costurar apoios do partido nos estados. Para o Ceará, por exemplo, Michelle queria lançar ao Senado a candidata Priscila Costa. E também rechaçava a aliança com Ciro Gomes, hoje no PSDB, para o governo do estado. Flávio, no entanto, articulava justamente este movimento. Hoje, o PL está fechado com Ciro. E a indicada de Michelle, Priscila, não vai concorrer a senadora, mas a deputada federal.
A derrota de Michelle no caso cearense foi política. Mas tocou no conflito familiar.
Em junho, enquanto o país parava para assistir a Seleção Brasileira jogar contra a Escócia na Copa do Mundo, a ex-primeira-dama publicou um vídeo em que, por mais de dez minutos, Flávio era exposto e criticado. Ela se disse humilhada e maltratada pelo enteado. Na sequência, após reações internas no partido, resolveu deixar o comando do PL Mulher. Ficou só com a candidatura a senadora.
Em mais de uma oportunidade, Michelle usou mensagens enigmáticas para se referir a Flávio. “Eu sei mais do que eles pensam”, disse ela já naquele primeiro vídeo.
Num outro momento, Michelle escreveu: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”. Ela compartilhava uma publicação em que o ex-governador (e candidato) Anthony Garotinho, do Republicanos, ventilava um suposto — e nunca divulgado — vídeo do banqueiro Daniel Vorcaro com “homens que defendem a família” e mulheres nuas.
Michelle guarda, mesmo, sério apreço aos valores evangélicos em que acredita e que prega. Foi assim em 2022, quando o desgaste familiar com Flávio evoluiu. Seguiu assim em 2026, quando o conflito se tornou político e veio a público, arriscando a imagem dele com o eleitorado feminino. A rejeição é alta: mesmo após o senador ter pedido desculpas a Michelle, 55% das mulheres dizem à Quaest que não vão votar nele.
(Este texto é um trecho da edição #2 da newsletter Palanque. A íntegra está disponível aqui)


