(Este texto remete à edição #2 da newsletter Palanque, intitulada ‘Por que as famílias políticas ganham tanta atenção?’. A íntegra está disponível aqui. A entrevista abaixo, no formato de perguntas & respostas, é um conteúdo extra, inédito e imperdível)

Como foi que os políticos e seus parentes se tornaram tão familiares para nós? A psicanalista Mayra Siqueira (conheça as redes sociais dela) foi convidada pelo Palanque a explicar por que, no período que antecede as eleições 2026, nos interessamos tanto pelos Bolsonaro, pelos Lula da Silva e clãs similares.
A profissional parte da ótica de Sigmund Freud, dos mitos gregos (consultados, lá atrás, pelo pai da psicanálise) e da ciência política. Mayra cursou uma pós-graduação nesta última área, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Originalmente, é jornalista formada pela PUC.
Nossa conversa e reflexões seguem abaixo. Suba no Palanque e deite no divã.
João Paulo Saconi
Vamos partir dos conhecimentos que você construiu no Jornalismo, na Ciência Política, na Psicanálise e, agora, na Psicologia. Você acredita num interesse latente do brasileiro pelas famílias das figuras políticas do país? É uma percepção possível ao acompanhar o noticiário ou consultar as redes sociais.
Mayra Siqueira
Sim. A família é a primeira instituição com a qual temos contato, assim que nascemos. É nela que estabelecemos nossas primeiras relações. Essas relações são reproduzidas em diversos outros contextos, como a escola, o casamento e a vida em sociedade. É natural que cada um de nós se sinta especialista no tópico “família”, já que estamos imersos nele desde o início das nossas vidas. Isso vale para o nosso olhar diante das famílias políticas, também. Trata-se de uma projeção. Os conflitos dos políticos são inerentes a todas as famílias. Mas ganham holofotes, devido à atuação pública deles.
João Paulo Saconi
Essa demanda, então, não é fabricada por nós, da imprensa, ou pela internet?
Mayra Siqueira
Não necessariamente. Ela existe, de fato, e tem como ponto de partida essa percepção de que todos nós estaríamos aptos a opinar quando a pauta é a família. Nos entendemos, de certa forma, “especialistas” no assunto. Agora, essa demanda pode, sim, ser amplificada graças às redes e à mídia, quando se percebe que o assunto rende audiência e engajamento. Os políticos também podem usar esse fenômeno para atrair as atenções.
João Paulo Saconi
Sempre fomos assim? A Julia Moreira Fraga, editora do Palanque, tem três tias-avós nascidas durante o Estado Novo e que foram batizadas em homenagem à família de Getúlio Vargas (Darcy, a então primeira-dama; Jandira e Alzira, filhas do casal). Isso me leva a crer, junto a outros fatores, que nossa atenção a essas famílias já era expressiva cem anos atrás. Mas a internet mudou nossa relação com esses grupos?
Mayra Siqueira
As redes sociais amplificaram a atenção a esses grupos. Antes, conhecíamos essas famílias pelos porta-retratos oficiais e os vídeos de campanha. Era sempre um ambiente controlado. Hoje, o político parece que está mais próximo de nós, pelas redes sociais. A tela do celular em que acompanhamos os dilemas das vidas deles, aliás, é a mesma em que vivemos os dilemas das nossas próprias famílias. Ainda há um filtro naquilo que vemos e que não corresponde à realidade. Mas é um filtro menor.
João Paulo Saconi
De que forma esse fenômeno impacta o debate público?
Mayra Siqueira
As pessoas passam a observar a atuação dos políticos no âmbito familiar como forma de mensurar a capacidade deles de lidar com a coisa pública. É como se, para estar apta a comandar o país, aquela autoridade precisasse, primeiro, conseguir gerenciar a própria família. Pode também existir um sadismo em assistir às famílias políticas que desmoronam em público. Uma equivalência: como nós, elas também têm conflitos.
João Paulo Saconi
O poder é um elemento central nas relações familiares entre políticos, naturalmente. Qual o impacto dessa configuração, sob a perspectiva da psicanálise?
Mayra Siqueira
Nas famílias, em geral, existe uma figura central. Sob o modelo patriarcal, esse espaço costuma ser ocupado pelo pai. Na política, um ambiente majoritariamente masculino, essa lógica é aplicada muitas vezes. Em torno desta figura, gravitam outras. Em famílias alheias à política, existem uma série de perguntas que ajudam a hierarquizar os membros dessa família. Quem é o filho preferido, por exemplo? Quem carrega o sobrenome? Quem vai herdar os bens? No contexto político, essas respostas são traduzidas em relações de poder. O filho preferido pode virar o sucessor do pai. O que carrega o sobrenome primeiro está, possivelmente, sendo preparado para receber a transferência daquele capital político. Ser preterido nesta costura, portanto, abre uma ferida familiar. E a ferida familiar torna-se também uma ferida política.
“E a ferida familiar torna-se também uma ferida política.”
João Paulo Saconi
O modelo pode fazer sentido para a família Bolsonaro, por exemplo. Flávio, filho mais velho, foi o escolhido pelo pai, preso em casa, para concorrer à Presidência este ano. Eles têm muitos apoiadores e também muitos críticos. A psicanálise explica?
Mayra Siqueira
Na psicanálise, temos a leitura de que a vivência de um assunto com muita intensidade é sinônimo de que ele nos toca intimamente. O lugar em que isso acontece, dentro de nós, é provavelmente mais familiar do que político. Isso porque, como falamos, a família é a nossa primeira instituição de referência. Logo, falas e opiniões de políticos podem nos remeter a significados das nossas famílias. O jeito de falar de uma dessas figuras pode, por exemplo, lembrar a personalidade de um pai ou de um tio. Com isso, vêm os sentimentos implicados na associação, que pode ser referente a um parente com quem concordamos ou discordamos.
João Paulo Saconi
Há uma brecha no patriarcado, dominado por figuras masculinas, como Lula e Bolsonaro (e seus filhos homens). Mulheres como Michelle Bolsonaro e Janja foram assunto relevantíssimo nos últimos quatro anos e também agora, antes e durante a campanha. Escrevi sobre no Palanque. O interesse não é por acaso, certo?
Mayra Siqueira
Não é à toa. A figura feminina, você citou alguns casos, muitas vezes está na posição de quem move a História. A Janja, por exemplo, está bancando uma decisão (de pedir a suspensão do app Discord em todo o Brasil, em nome da proteção das crianças). A Michelle está no meio de uma disputa (interna no PL, onde equilibra forças com Flávio Bolsonaro).
A mulher incomoda de um jeito particular quando quebra uma expectativa antiga. Espera-se, no patriarcado, que ela seja um elemento de coesão. Ela deveria ser a apaziguadora, a esposa, a primeira-dama e a que está sempre sorrindo.
João Paulo Saconi
O que acontece quando elas, Michelle e Janja, quebram essa expectativa?
Mayra Siqueira
Quando essa figura perfeita — bela, recatada e do lar (manchete de 2016 sobre Marcela Temer, então prestes a se tornar primeira-dama) — decide agir, brigar e ocupar um espaço próprio, ela rompe com o que é esperado. O rompimento com a expectativa gera, na sequência, uma reação. A mulher passa a ocupar um lugar inesperado e estranho. Nele, poderíamos encaixar a Janja, a Michelle ou qualquer outra que faz aquilo que não se esperava de uma mulher. No caso das duas, elas ainda são esposas, mas aparecem contestando e se envolvendo politicamente. Contrariam uma camada clássica da estrutura em que a gente vive.
João Paulo Saconi
Você, assim como Freud, estuda os mitos gregos para explicar as dinâmicas familiares. Por quê?
Mayra Siqueira
Não devemos levar os mitos ao pé da letra. Eles são alegorias de dois e três mil anos atrás, que carregam muitos elementos ainda atuais. É possível reconhecer a nossa dinâmica, de 2026, na mitologia. Ela não envelhece. O pano de fundo pode ser antigo, mas a forma de organização das relações é muito atual. As práticas humanas e familiares se reproduziram, especialmente no contexto ocidental. Por isso, podemos até traçar paralelos com mitos que lembram as narrativas do nosso cenário político.
João Paulo Saconi
Algum deles reflete as sagas de Michelle (recentemente em crise com Flávio, o enteado) e Janja (comumente criticada por lulistas e bolsonaristas)?
Mayra Siqueira
A figura da mulher é antiga no imaginário. Um exemplo é a Clitenestra (ou Clitemnestra), esposa de Agamemnon (o líder dos exércitos gregos na Guerra de Troia). Ela não fica no lugar de vítima passiva, que se espera de uma personagem feminina. O marido mata a filha para conseguir ganhar o conflito (Ifigênia, a mais velha, é sacrificada para exaltar Ártemis, a deusa da caça). Quando Agamemnon volta para casa, Clitenestra resolve matá-lo para vingar a filha. Essa mulher vive o perigo e a ameaça, até ser condenada, justamente por quebrar aquilo que se esperava dela.
Na esfera de poder, a mulher que age é vista com desconfiança, o que um homem não acaba despertando. Ela pode até gerar fascínio e admiração, mas também hostilidade.
João Paulo Saconi
Para além da questão feminina, quais mitos são úteis nos paralelos com a política?
Mayra Siqueira
É essencial esse mito de Agamemnon e Clitenestra, que chamamos de Casa dos Atridas (ou Casa de Atreus). Fala de uma dinastia inteira, em que o poder vai passando de geração em geração. O processo é sempre carregado de muito sangue e violência. A morte de Agamemnon pelas mãos de Clitenestra, para vingar o sacrifício da filha em Troia, cria um efeito cascata. O filho (Orestes) assassina a mãe, honrando o pai. Todas essas disputas acontecem numa mesma linhagem. Herda-se não só o trono, mas também a tragédia. Quando a gente olha para algumas famílias do nosso cenário político, a gente vê rivalidades que atravessam gerações.
João Paulo Saconi
Pensando na lógica do sacrifício, lembrei de quando Jair Bolsonaro (hoje chamado de “mito”, aliás) lançou o filho, Carlos, a vereador. Foi em 2000, no Rio de Janeiro. Naquela época, a mãe de Carluxo, Rogéria, tentava o mesmo cargo. Ela perdeu, o filho ganhou. Há ainda outros casos, incluindo referências externas à cultura.
No cinema, a Casa dos Átridas inspira “Troia” (2004), “A Odisseia” (1997 e 2026) e “Duna” (1984 e 2021) — este último, com lançamento marcado para dezembro, inclui a chamada Casa Atreides.
Mayra Siqueira
Nos mitos, é como se ninguém escapasse do roteiro que recebeu. Quando recebe esse roteiro, esse nome da família, fica difícil não exercer um papel que lhe foi dado. Essa predestinação permeia a mitologia. As pessoas podem tentar escapar dos seus destinos, mas o roteiro já está escrito. E elas acabam cumprindo.
João Paulo Saconi
João Campos, em Pernambuco, parece guiado por esse ideal de predestinação desde a morte do pai, em 2014. Hoje, concorre pelo PSB a governador, cargo que marcou a trajetória de Eduardo Campos. No Rio, Leo Lupi, filho de Carlos Lupi (ex-ministro da Previdência), vem a deputado estadual pelo PDT, sigla da qual o pai é presidente. Tomás Covas, filho de Bruno Covas, trabalhou recentemente na Prefeitura de São Paulo, antes comandada pelo político. São muitos exemplos.
Outros mitos tocam na relação pai e filho, para além da predestinação?
Mayra Siqueira
O mito de Édipo, por exemplo, fala sobre a sucessão pela via do conflito. Logo que Édipo nasce, vem a profecia de que ele mataria o pai e se casaria com a própria mãe. Todo mundo, de todos os lados, tenta escapar. No fim, é exatamente isso que acontece. Mesmo com Édipo preparado para tentar fugir dessa profecia, ela acaba se cumprindo em meio à ignorância dele. A transmissão de poder de pai para filho tem um pouco disso. Quando assumem o lugar do pai, os políticos, de alguma forma, precisam matar esses pais simbolicamente. Falamos muito disso na psicanálise.
O mito de Cronos também aborda a violência. O pai devora os próprios filhos, por ter medo que eles o destronem. Em muitas famílias poderosas, vemos que o patriarca não consegue deixar o filho crescer, brilhar e sucedê-lo. Porque cada filho que cresce é uma ameaça ao lugar dele. Então, esse pai precisa que o filho continue pequeno.
João Paulo Saconi
Conforme já dito, Freud estudou a mitologia para entender as famílias. O que ele diria sobre tudo isso: as famílias políticas e nossa atenção sobre elas?
Mayra Siqueira
Vou tentar com base no meu conhecimento sobre Freud. Acredito que ele diria que nada disso é sobre política. É sobre família e as primeiras relações. A política é o palco da nova história de um teatro muito mais antigo.
“A política é o palco da nova história de um teatro muito mais antigo.”
Essa história se baseia no triângulo da infância, formado por pai, mãe e criança (mesmo que a família tenha muitos irmãos). Nós operamos nessa triangulação, em disputa por amor e atenção. É nela que aprendemos, pela primeira vez, o que é desejar, competir, preferir ou ser preferido. É um modelo heteronormativo (centrado em casais heterossexuais), mas que a psicanálise adapta para todas as estruturas.
Para Freud, nós nunca superamos a triangulação. Vamos reencenando-a em outros cenários. Eles incluem a política. Imagino que Freud não acharia tão impressionante a atenção que o eleitor dedica à política. Ele entenderia que essa é uma transferência, em que a pessoa projeta na figura pública as pessoas que ela conheceu e conviveu.
João Paulo Saconi
Pela perspectiva do que se ouve no divã, de que forma a política atravessa as famílias de pessoas que não estão inseridas nela, como a minha e a sua? A psicanálise não costuma orientar ações aos pacientes em análise. É assim também em conflitos políticos entre parentes?
Mayra Siqueira
Nós vivemos recentemente um pico de interesse na política. Esse processo, claro, se refletiu no consultório. Assim, tornaram-se comuns os relatos de pessoas que pararam de falar com parentes ou saíram do grupo da família.
A psicanálise, de fato, não orienta ou aconselha. Ela não trabalha com sintomas, mas com a raiz. A ideia é entender por que a gente repete situações. Dentro disso, eu, enquanto psicanalista, não posso dar dicas de como apaziguar a família no almoço de domingo. O que faço é enxergar, de verdade, o que está em jogo. É um processo lento. Ele mostra que, quando uma família racha por política, nunca é uma questão só política. Pode ser uma mágoa antiga que encontra na política um espaço para surgir.
O que a psicanálise vai poder oferecer são perguntas. O que essa briga de política dentro da minha família está permitindo que eu fale? E o que eu não conseguiria dizer de outro jeito? Quem consegue responder já está brigando menos com os familiares.
(Este texto remete à edição #2 da newsletter Palanque, intitulada ‘Por que as famílias políticas ganham tanta atenção?’. A íntegra está disponível aqui. A entrevista abaixo, no formato de perguntas & respostas, é um conteúdo extra, inédito e imperdível)

