_PRÓLOGO
O que você vai ler nesta edição
Vorcaro, Moraes e Mendonça: Mais perguntas do que respostas • Duas verdades e uma mentira do banqueiro para Xandão • Réus estão prontos para desafiar o desfecho do caso do golpe • Presidenciáveis, à exceção de Lula, têm novo ambiente para a anistia • Ruína da Lava-Jato antecipa o problema • Datas e conteúdos úteis
Ainda somos um país, passada esta última semana? Como brasileiro — e jornalista — tenho uma série de perguntas que ecoam entre os meus pensamentos, enquanto leio a sucessão de vazamentos sobre Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, e os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O conteúdo inundou nossos celulares, computadores, TVs, rádios e mentes.
Palanque é uma newsletter dedicada às eleições de 2026. Passados 20 dias do início da campanha, os dois magistrados juntaram-se ao (enrolado) banqueiro no rol dos personagens principais do pleito. Não são candidatos, mas estão no centro da agenda e da maior crise institucional e jurídica da história democrática brasileira. É sobre o trio, naturalmente, que passo a escrever agora, neste e em futuros envios.
Soa como um insulto a percepção de que Moraes manteve conversas secretas e indecorosas com Vorcaro, à disposição das preocupações do magnata.
Agride mais ainda a inegável conexão — cronológica e semântica — entre esse bastidor e os dois contratos multimilionários que o escritório de Viviane Barci, mulher de Moraes, manteve com o banco. Não sou eu quem diz, mas os editoriais dos maiores jornais do nosso país.
Para O Globo, onde trabalhei por sete anos, as conexões entre Vorcaro e Moraes “exigem providências imediatas, sem tergiversação”. A Folha de S.Paulo afirma que “não há mais lugar no STF para Alexandre de Moraes”. O Estadão, que expôs a fratura em primeira mão, defende que “o ministro tem a obrigação de renunciar”.
A crise escalou há 72 horas. Moraes continua ministro e, além de não se explicar publicamente, apareceu gargalhando junto aos pares, dentro do Supremo — Brenno Carvalho, fotógrafo daquela cena, revela os bastidores aqui. No movimento mais recente, Moraes retaliou Mendonça. Responsável por encomendar e tirar do sigilo o relatório sobre o caso, o ministro “terrivelmente evangélico” surgiu no chamado Inquérito das Fake News, que a Corte mantém, sem desfecho, desde 2019.
Como todos os colegas da imprensa, nesses últimos três dias, não desgrudei do celular. Mais do que as notificações, apostei em conversas que pudessem responder às nossas perguntas. Escrevo o que apurei, começando pelo futuro: esta edição visa o que vem por aí, com Moraes ainda de toga. Logo, em novos envios, o foco será o passado: os esqueletos no armário dele, de Mendonça e do Supremo. Boa leitura!
_PATRIMÔNIO EM DISPUTA
“Tudo de importante fica no seu colo! Impressionante! Mas seu legado pro Brasil será eterno. Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país”. De: Daniel Vorcaro. Para: Alexandre de Moraes. 30 de out. de 2025.
Na frase acima, Vorcaro não mentiu. Muitos trâmites importantes para o Judiciário brasileiro contemporâneo, de fato, ficaram no colo de Moraes. Os itens se multiplicaram em nove anos, desde que ele foi indicado ao STF por Michel Temer.
A lista é longa, de 2017 até aqui. Inclui o mencionado Inquérito das Fake News, que começou para apurar a desinformação nas eleições de 2018 e nunca mais parou — acabou, inclusive, interpolado com a CPI da Covid no Congresso. Houve a censura de uma matéria da revista Cruzoé sobre o ministro Dias Toffoli. Também a suspensão temporária do X (antigo Twitter), em meio a uma rixa internacional com Elon Musk e, mais tarde, com o governo Donald Trump e sua Lei Magnitsky.
Canetadas referentes a vários políticos foram ainda distribuídas por Moraes. Jair Bolsonaro, sem dúvidas, foi o mais relevante deles. O ex-presidente está preso, após ter sido condenado — sob relatoria de Moraes — a 27 anos e três meses de pena.
Vorcaro também não errou quando disse que Moraes se consolidaria como a pessoa mais importante do país. A posse dele como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022, ajudou a criar essa imagem.
Em torno de si (e da defesa da democracia como causa), naquela ocasião, Moraes reuniu quase todos os ex-presidentes da República vivos — Fernando Henrique Cardoso foi a exceção, por motivos de saúde. Demais autoridades também estavam presentes para ouvir o ministro falar sobre o Estado, os direitos, as liberdades e a importância de “um ambiente de total visibilidade” (veja a íntegra do discurso).
Falível, a verdade de Vorcaro sobre Moraes vacilou num ponto específico: a “eternidade” do legado do ministro. A exposição das entranhas do Caso Master arrisca a imagem do Supremo, mas também o acervo em que “Xandão” tocou.
_PRECOCE DELÍRIO
A maior herança que Moraes deixaria para a História brasileira seria o julgamento do caso da tentativa de golpe, em 2023. Agora, o tema já movimenta figuras que, mais do que nunca, estão interessadas em tentar derrubá-lo à luz do escândalo do Master.
Uma delas é o advogado Ezequiel Silveira, de Brasília. Ele representa a Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), que reúne mais de 600 grupos em que há parentes dos réus de Moraes. A palavra “vítimas”, nesse contexto, é uma autodenominação da organização.
Na última terça-feira, 2, na sequência das revelações sobre o STF e o Master, a Asfav emitiu uma nota. O texto dizia que “a atuação (de Moraes) como magistrado está completamente descredibilizada” e sugeria a anulação do caso sobre golpismo.
Conversei com Silveira para entender, via Palanque, o que a nota implicava.
O advogado separou a explicação em dois aspectos.
O primeiro é jurídico. Diz ele: “Não existe uma vinculação jurídica direta e automática entre os dois casos. Não é porque o ministro pode ter sido ímprobo no Caso Master (sob relatoria de André Mendonça) que os seus julgamentos do 8 de Janeiro deverão ser automaticamente anulados. São processos distintos e é necessário analisar as circunstâncias concretas de cada situação. Os processos do 8 de Janeiro devem ser anulados porque ele foi ímprobo nesses julgamentos, e não no Caso Master”.
Por essa perspectiva, seria difícil — tendo em vista o ordenamento jurídico brasileiro — uma eventual anulação dos atos de Moraes no caso do golpe, alheio ao do Master. Faz sentido: o 8 de Janeiro aconteceu, e todos nós assistimos.
A Praça dos Três Poderes foi vandalizada. As maiores instituições do país, devassadas por radicais. Não à toa, o banco dos réus foi ocupado por 1,4 mil pessoas de uma vez, com mais de 800 condenados e, ainda, centenas de acordos de responsabilização celebrados.
Pares de Moraes na Primeira Turma do STF também analisaram as ações, o que dá sustentabilidade para que elas se mantenham de pé, apesar do ministro.
Só que, ainda segundo o advogado Silveira, o segundo aspecto é político: “Ele inevitavelmente repercutirá no aspecto jurídico. Se agora forem comprovados os fatos que demonstrem que o ministro (Moraes) mantinha uma conduta incompatível com a magistratura, inclusive durante o período em que estava realizando os julgamentos do 8 de Janeiro, isso dá força a muitas das situações que já vinham sendo denunciadas”.
Entre as “situações denunciadas”, Silveira lista passagens em que Moraes “atuou não de acordo com a lei, mas de acordo com conveniências”, no contexto do golpismo. Como exemplo, lembra que “ele se dizia vítima e julgava as pessoas acusadas, o que é proibido legalmente”.
A argumentação não é nova, pelo contrário. Bolsonaristas vêm repetindo críticas e ataques a Moraes, nessa e em outras linhas, pelos últimos quatro anos. O ministro não só se defendeu, como encontrou respaldo entre os pares (autoridades de dentro e fora do Supremo) e no debate público para conduzir o caso do golpismo com firmeza.
O envolvimento de Moraes com Vorcaro, porém, eleva o criticismo e reduz (ou invalida) o apoio aos atos processuais do ministro. A Quaest Pesquisa mostrou, em maio, que 46% dos brasileiros, àquela altura, entendiam que o escândalo do Master afetava a reputação das instituições brasileiras de maneira generalizada (incluindo o governo Lula e a antiga gestão Bolsonaro). No caso do Supremo, além dessa parcela citada, outros 10% acreditavam que o banco tinha arranhado a imagem do tribunal.
De lá para cá, a imagem da Corte e de seus integrantes se deteriorou exponencialmente. Assim, os atos de Moraes serão, como nunca, colocados em xeque. Só em 2023, após o 8 de Janeiro, ele proferiu mais de 6 mil decisões sobre o tema. Segundo Wesley Galzo, repórter do Estadão, o ministro concentrava, em 2025, 21 dos 37 inquéritos criminais que estavam no tribunal mais importante do país. O ímpeto revisionista, portanto, pressiona quem, apesar de Moraes, defende punição a golpistas.
“Agora, o reconhecimento de eventual envolvimento do ministro (Moraes) no Caso Master torna-se um elemento importante para o questionamento dos julgamentos do 8 de Janeiro”, avança o advogado Silveira. “Ficará comprovado, pela segunda vez, que ele agiu de maneira incompatível com os deveres de probidade da magistratura e que não tinha a necessária lisura para atuar nesses processos”, afirma.
Finaliza o advogado: “Isso pode, sim, abrir espaço para que as defesas e a própria Justiça reavaliem os julgamentos realizados por ele (…)”.
_POLÍTICA DE GOVERNO
Antes de ganhar novos contornos pós-Master, o desejo bolsonarista de reverter o caso do golpe já vinha ecoando nas eleições. À direita, Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) se manifestaram publicamente favoráveis à anistia dos envolvidos, já durante a pré-campanha.
Renan Santos (Missão) e o Movimento Brasil Livre (MBL) apoiam o Projeto da Dosimetria, que abre caminho para a redução das penas aplicadas.
Augusto Cury (Avante), que tem subido nas pesquisas de intenção de voto, não se opõe à ideia. A proposta dele seria criar um comitê de juristas para reavaliar o tema.
Os acontecimentos da última semana transformam o ambiente social em que as ideias deles serão discutidas nas sabatinas e debates até o pós-eleições — a ver o resultado.
_PASSADO EXEMPLAR
O pouco que sobrou da Operação Lava-Jato, dos anos 2010 até aqui, é uma indicação do que pode se tornar o “legado” de Moraes — na expressão utilizada por Vorcaro.
As credenciais da operação viraram ruína ante a revelação de mensagens Deltan Dallagnol e Sergio Moro, procurador e juiz no Paraná, respectivamente. O caso veio à tona graças ao The Intercept Brasil e a chamada “Vaza Jato”. Os dois atuavam num conluio entre os polos acusatório e decisório. A exposição acarretou uma repercussão política que, em seguida, levou à derrocada jurídica da operação.
O mesmo aconteceu no Rio de Janeiro, onde a Lava-Jato era conduzida pelo agora ex-juiz Marcelo Bretas. Depois de mais de seis anos na cadeia, Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro, foi solto em 2022: era o único alvo da operação que ainda continuava em regime fechado. Bretas foi afastado no ano seguinte e, mais recentemente, aposentado compulsoriamente. Suas decisões caíram em sequência.
Por muitas vezes, advogados e advogadas dos réus da Lava-Jato apelaram para a Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada, inerente aos processos penais. Em vias gerais, ela prega a anulação de uma prova (ou ato jurídico, incluindo denúncia, indiciamento ou condenação) quando há ilegalidade na produção dela. Foi assim, por exemplo, que Flávio Bolsonaro se livrou do caso das “rachadinhas”.
Moraes até poderia, mas não conseguiu interromper a semeadura. Ao levar o racha com Mendonça para o Inquérito das Fake News, tirou o problema debaixo da sombra da árvore do Master. Agora, ele tocou outras partes da colheita.
O inquérito, onde o ministro tenta enrolar Mendonça, é fundante para a prevenção de Moraes em outras investigações — tornou-se responsável por elas justamente pela conexão dos fatos investigados.
Mais do que isso: as provas do Inquérito das Fake News, em que ele voltou a despachar, passaram a incluir, em 2024, conteúdos relacionados à investigação do golpe. Foi o ministro quem decidiu, lá atrás, conectar esses processos.
_PONTEIRO
Ajuste o seu e não perca o timing eleitoral
_Já estão disponíveis, desde a virada de setembro, as informações completas das seções de votação para os eleitores aptos ao pleito deste ano (em trânsito, inclusive).
_Bolsonaristas marcaram para o próximo dia 7 uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, em referência ao Dia da Independência. A data vem, há muito, sendo ventilada pela militância, como acontece todos os anos. Em sua sabatina no “Jornal Nacional”, da TV Globo, Flávio Bolsonaro incluiu a mensagem numa “colinha” escrita à caneta, na mão direita. Agora, o ato encampará a crítica a Alexandre de Moraes.
_No mesmo dia, Lula celebrará a Independência em Brasília, no tradicional desfile pela capital federal. Há um cuidado no governo para evitar associações entre o evento e as eleições, como acontecia sem quaisquer escrúpulos na era Bolsonaro.
_O fim da escala de trabalho 6x1, pauta prioritária para o lulismo nas eleições, acaba de avançar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O texto foi aprovado na quarta-feira, 2 de setembro. Só que, agora, Davi Alcolumbre, presidente da Casa, prevê levar o tema ao plenário só depois das eleições.
_PRATELEIRA
Tire daqui mais conteúdos interessantes
_O podcast “O Assunto”, do G1, debate hoje a “crise inédita na história do Supremo” e o contra-ataque de Alexandre de Moraes e André Mendonça, via Inquérito das Fake News. Sempre vale ouvir Natuza Nery.
_Minha primeira investigação jornalística internacional acaba de ser publicada pelo jornal britânico Daily Mail. Trata do caso bizarro da mulher adulta que se passou por uma criança para aplicar golpes em diversos estados brasileiros. Conversei com vítimas dela no Rio de Janeiro e no Paraná: todas tiveram o cotidiano devastado enquanto tentavam ajudar sua algoz. O resultado, assinado com a jornalista Barbara Davies, foi publicado on-line e também nas páginas do Mail, em Londres.
_Como as empresas brasileiras (do Paraná, principalmente) se organizam para competir com o gigantismo econômico chinês? Adriana de Cunto, chefe de redação da Folha de Londrina, responde a essa pergunta numa curiosa reportagem. O texto revela como a indústria pesada transporta suas cargas gigantes (ou indivisíveis) de maneira estratégica pelas rodovias nacionais, a fim de bater a eficiência chinesa neste mercado. Adriana, com quem tive o prazer de colaborar recentemente em outra reportagem, acaba de ser agraciada com o Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo.
_PALANQUE é uma newsletter dedicada às eleições de 2026, assinada pelo repórter independente João Paulo Saconi (autor de ‘Vocês da Imprensa’) e editada pela jornalista Julia Moreira de Fraga, que também assina a newsletter de curadoria The Cool Hunch. O conteúdo também está em posts no Instagram e no TikTok.







