(Agora é possível ouvir a narração do Palanque, clicando acima)
_PRÓLOGO
O que você vai ler (e ouvir) nesta edição
Mendonça: na órbita bolsonarista, da chegada ao Supremo à berlinda • Cláudio Castro: remédio de acordo com a patologia • O aceno de um católico a um bispo, de olho num ministro ‘terrivelmente evangélico’ • Advogada que salvou Flávio Bolsonaro das ‘rachadinhas’ fez parte da defesa de Castro • Elos entre ela e Mendonça vão de jantar com ‘juristas conservadores’ a lucrativo curso de oratória do ministro • Calendário eleitoral e leituras úteis
Poucos nomes são tão citados no noticiário atual como o de André Mendonça.
Conduzindo casos de repercussão explosiva (o do Banco Master e o das fraudes na previdência), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) está sob holofote contínuo.
Principalmente depois que, na virada de setembro, Mendonça retirou o sigilo das mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, integrante da mesma Corte.
Os diálogos, conforme sintetizamos na edição anterior do Palanque, revelam uma relação espúria entre o banqueiro e Moraes, antes o mais notório togado do Brasil.
Enquanto conduzia casos também grandiosos (como o da tentativa de golpe de 2023), “Xandão” nunca saiu da mira. Esteve exposto ao escrutínio público incessantemente, nos últimos quatro anos. Não houve trégua contra Moraes, principalmente por parte do bolsonarismo. É nesse contexto, inclusive, que as mensagens de Vorcaro corroem a credibilidade do ministro como julgador.
E Mendonça? “Terrivelmente evangélico”, ele foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro sob a premissa de cumprir uma promessa feita ao eleitorado: nomear o primeiro ministro desse grupo religioso à mais alta Corte do país.
Além do ex-presidente, a figura mais engajada pela aprovação do nome de Mendonça no Senado foi Michelle Bolsonaro: à época, ela o chamou de “nosso irmão em Cristo”. Agora, enquanto concorre a uma cadeira de senadora pelo Partido Liberal (PL) no Distrito Federal, a ex-primeira-dama segue demonstrando o apoio. “Você é um escolhido e ungido do Senhor”, escreveu ela em mensagem publicada recentemente.
Tamanha identificação com o núcleo duro do clã bolsonarista fez com que Mendonça, mesmo ministro, continuasse visado pela órbita desse grupo político. Neste contexto, surge Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro cujo futuro está nas mãos de Mendonça, entre idas e vindas jurídicas, desde 2023. O político é filiado ao PL, e se manteve no poder até maio deste ano tendo a família Bolsonaro como fiadora.
O elo entre Castro e Mendonça será destrinchado a seguir, com memórias e bastidores exclusivos. Ele é paralelo à conexão entre o ministro e uma advogada ligada a Flávio Bolsonaro, que passou também a advogar para o então governador fluminense.
Esta edição revela parte dos contornos da relação entre Castro e Mendonça, em complemento às recentes descobertas da repórter Constança Rezende, da Folha de S.Paulo. Mensagens de 2022 resgatadas pela Polícia Federal (PF) mostram o então governador buscando o ministro para tratar de um caso envolvendo Sérgio Cabral, antes chefe do Executivo no Rio. Castro chama o magistrado de “amigo”, pede para falar sobre o “caso Cabral” e recebe uma promessa de ligação “em alguns minutos”.
Mendonça se tornou o responsável por trazer luz aos laços questionáveis entre o Supremo (e seus ministros) e a banda podre do mercado financeiro. Mas escolheu fazê-lo num momento crucial para os brasileiros, a poucos dias da eleição, e sem revelar previamente a linha difusa que ligava a si próprio a Vorcaro e ao Master.
Conforme revelou o repórter investigativo Paulo Motoryn na newsletter “Noites Húngaras”, publicada no Substack, Mendonça se encontrou com o magnata em 14 de março de 2025, em São Paulo. O ministro acabou confirmando publicamente aquela reunião informal e disse, então, que teria se limitado a ouvir Vorcaro a respeito de uma ação relativa a créditos de precatórios de interesse do Master.
Mendonça também foi questionado, antes desta publicação, sobre as informações relativas a Castro, organizadas a seguir. Não houve retorno, até então.
_PROPINA E PATOLOGIA
“Ele agia de acordo com a patologia. Um antídoto para cada uma que se apresentava.”
Enrolado juridicamente como poucas figuras da República nos últimos quatro anos, Cláudio Castro adotou, de 2022 para cá, táticas engenhosas para tentar escapar das consequências de seus malfeitos e permanecer no Palácio Guanabara — ele chegou até lá em 2020, após o afastamento judicial do governador Wilson Witzel, o breve.
Uma das tramas buscava enredar magistrados que relatavam casos em que o então governador era réu.
Três pessoas que acompanhavam a agonia de Castro no Palácio Guanabara, em meio a múltiplos processos judiciais, relatam a estratégia ao Palanque. O político, de acordo com elas, alterou a composição de sua defesa para tentar influenciar o desfecho de casos no Superior Tribunal de Justiça (o STJ) e o próprio STF.
A lógica? Quando uma das ações a que Castro respondia mudava de mãos e ganhava novo relator, era a hora também de recalcular os advogados que o representavam. Neste contexto, o magistrado era “a patologia”, enquanto as conexões da defesa eram o “antídoto”, de acordo com uma das pessoas ouvidas.
A busca, conforme narra esse grupo, era por profissionais do Direito que estivessem — pelo menos em tese — próximos aos magistrados relatores.
Esses julgadores seriam os responsáveis por analisar os casos envolvendo Castro, autorizando ou não a produção de provas, buscas e apreensões e, eventualmente, pedidos de prisão. Esse último era o maior medo do político enquanto esteve no poder, conforme se ouvia entre auxiliares. Logo, faria sentido, na avaliação do entorno de Castro, que ele contasse com advogados e advogadas cuja interlocução fosse supostamente facilitada com esses magistrados em específico.
O cálculo teria se iniciado, segundo as pessoas que ouvi, já quando dois inquéritos contra Castro surgiram na PF, em 2023, por autorização do ministro Raul Araújo, do STJ — tribunal ao qual cabem, em geral, julgamentos relativos a governadores.
Os casos apuravam desvios em recursos da Fundação Leão XIII, órgão dedicado à assistência social do RJ, mantido sob o guarda-chuva de Castro quando ele ainda era vice-governador. A suspeita era de corrupção envolvendo propinas pagas a agentes públicos (incluindo Castro) por uma firma fornecedora da fundação. Parte do dinheiro, equivalente a R$120 mil, teria sido transportada por Castro numa mochila.
A câmera de segurança de um elevador num shopping da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, registrou Castro e o apetrecho. O flagra virou tabu no entorno dele.
Raul Araújo chegou a autorizar a quebra dos sigilos fiscal e telemático (ou seja, das comunicações eletrônicas) do então governador, com ele no mais alto cargo fluminense. A decisão indica que os esforços de Castro em relação ao ministro não surtiram efeito.
As manobras para tentar influenciar magistrados teriam se intensificado, conforme a newsletter apurou, quando processos envolvendo Castro chegaram a André Mendonça.
No caso do ministro do Supremo, Castro entrou com um pedido de habeas corpus para trancar os inquéritos autorizados por Raul Araújo, do STJ. O relator inicialmente sorteado foi Luís Roberto Barroso, hoje ministro aposentado do STF.
A defesa de Castro, no entanto, pediu uma alteração. A alegação era de que Mendonça deveria julgar o pedido, uma vez que o ministro já era o responsável por outro processo relativo à Leão XIII. Nele, constava a homologação da delação de Marcus Vinícius Azevedo da Silva, um ex-assessor de Castro que o acusava de receber propina. Originalmente, o ministro Marco Aurélio Mello conduzia a ação no STF. Em 2020, foi ele quem validou a delação. Mendonça herdou a história de seu antecessor.
Em 22 de setembro de 2023, chegou às mãos de Mendonça aquele habeas corpus impetrado pela defesa de Castro para extinguir os casos no STJ e anular a delação do ex-assessor Marcus Vinícius. O pedido para que Barroso fosse substituído funcionou e, então, Mendonça, considerado “prevento”, assumiu a relatoria.
No entorno de Castro, parecia o ambiente perfeito: um ministro bolsonarista para julgar um governador do bolsonarismo. Assim, a movimentação ganhou contornos indiscretos.
A confiança num eventual salvo-conduto de Mendonça fez Castro e seu time deixarem exposta a estratégia de tentar influenciar o magistrado.
_PROCESSOS À LA CARTE
Uma das indiscrições de Castro aconteceu no início de 2024. Mendonça completava quatro meses na análise do habeas corpus, abrindo espaço para argumentos da defesa do então governador e para posições da Procuradoria-Geral da República (PGR), autora do pedido para investigá-lo. Não havia sinal de celeridade.
Ao mesmo tempo, a governabilidade de Castro vinha sendo minada pela iminente derrocada judicial e pelas alianças políticas que ele fez para se manter na cadeira. A mais custosa delas foi fechada com Rodrigo Bacellar (União Brasil), até então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e responsável pela sobrevida daquela administração estadual junto ao parlamento. Em dado momento, o poder concedido a Bacellar era tanto que ele parecia governar mais do que Castro.
Tentando sair das cordas, Castro fez um movimento rumo a Mendonça em 23 de janeiro daquele ano. Foi um jantar oferecido ao bispo Abner Ferreira, figura simbólica da Assembleia de Deus de Madureira. A igreja é uma das mais frequentadas por fiéis cariocas e pertence à maior denominação evangélica do Brasil, segundo dados da Quaest Pesquisa publicados em “Brasil no Espelho”, livro de Felipe Nunes (Editora Globo, 2025).
Mendonça não estava presente naquele jantar, mas um alívio dele a Castro no Supremo era entendido na cochia do governo como o prato principal do convescote.
Publicamos a respeito na coluna Lauro Jardim, do Jornal O Globo, onde eu escrevia àquela altura. Uma fonte muito próxima a Castro me ligou naquela semana para contar a intenção por trás do encontro.
A reunião escapava à religião do governador (que é católico fervoroso) e também à agenda dele: naquele dia, conforme registramos na coluna, Castro estava tocando apenas “despachos internos”. De acordo com a fonte, o jantar era um aceno ao STF, por meio do bispo Ferreira, tido em alta conta por Mendonça.
Não só aquela figura da confiança de Castro reafirma até hoje essa mesma informação, como o tempo reforçou ainda mais a identificação entre Mendonça e o bispo Ferreira.
No passado, o bispo chegou a se juntar ao ministro num périplo pelo Rio. Foi em dezembro de 2021. Depois de Mendonça ter tido sua indicação aprovada para o Supremo, ele foi pessoalmente agradecer as lideranças que o ajudaram antes da sabatina no Senado. Castro recebeu uma das visitas de cortesia, na semana anterior à posse de Mendonça no tribunal. De acordo com a repórter Anna Virginia Ballousier, o então governador chegou a sugerir, de brincadeira, que o ministro passasse a ser chamado de “maravilhosamente evangélico” em vez de “terrivelmente evangélico”, como dissera Jair Bolsonaro. Abner Ferreira estava na conversa, fotografada e reportada pela repórter, a mais atenta à intersecção nacional entre fé e política.
Atualmente, o elo entre Ferreira e Mendonça segue firme. Em meio à crise deflagrada no STF, no enfrentamento a Alexandre de Moraes, o ministro recebeu o apoio do bispo. “Deus é Contigo Excelência”, publicou Ferreira nas redes sociais.
Castro negou, à época, que o jantar oferecido ao bispo tivesse Mendonça como objeto. Em nota, afirmou naquele janeiro de 2024 que “não havia qualquer relação entre encontro com representantes religiosos e processos judiciais”. Busquei o ex-governador agora em setembro para comentar esse e outros trechos desta edição. Não houve retorno: Castro está imerso em problemas maiores, também relativos ao Master.
_PECULATO LÁ E CÁ
As alterações constantes na defesa de Cláudio Castro, naqueles anos de 2023 e 2024, envolveram também uma advogada conhecida pela ligação com Flávio Bolsonaro.
O senador e seus irmãos estiveram rodeados por diferentes representantes jurídicos durante os anos em que foram atravessados pelo poder da Presidência do pai, Jair. Os patronos chegavam a brigar entre si. Foi o que aconteceu com Luciana Pires: a criminalista passou a defender o “Zero Um” depois de vencer, em 2020, uma queda de braço contra Frederick Wassef, até então o homem-forte de Flávio ante o Judiciário.
Tanto Wassef quanto Luciana foram figuras relevantes nas tentativas do parlamentar de se livrar do escândalo das “rachadinhas” no antigo gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O esquema comandado por Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete de Flávio, ficou conhecido — graças à imprensa — pelo desvio dos salários de funcionários públicos para pagar contas pessoais de Flávio. Foi Luciana quem articulou a tese que livrou o político de responder pelo caso, mesmo diante da grande repercussão dele e da repetição da pergunta “Cadê o Queiroz?”.
Por causa dos desvios, Flávio chegou a ser denunciado em novembro de 2020 pelos crimes de organização criminosa; lavagem de dinheiro (via loja de chocolate, entre outras alternativas); apropriação indébita (dos bens de outra pessoa: os salários dos funcionários) e peculato (apropriação ou desvio de bens públicos). Este último crime, aliás, é semelhante a um daqueles pelos quais Castro era suspeito na investigação pelos desvios na assistência social do Rio, sobre a qual aguardava alívio de Mendonça.
No início de 2021, no entanto, o STJ anulou praticamente todas as provas do caso de Flávio e das “rachadinhas” (veja a cronologia aqui). Motivo? A avaliação de que o senador começara a ser investigado pelo tribunal errado. As “rachadinhas” estavam sob a avaliação do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), mas os ministros entenderam que, pelo cargo que ocupava em Brasília, ele teria direito a foro privilegiado e não poderia ter sido visado em primeira instância.
O argumento, sustentado nos tribunais por Luciana, levou não só à anulação das provas como ao fim de qualquer procedimento judicial contra Flávio pelas “rachadinhas”. Com provas nulas, seria inviável que o Ministério Público buscasse a condenação do senador. O êxito rendeu créditos: logo depois do julgamento vitorioso, Flávio levou Luciana ao encontro de Jair Bolsonaro. O então presidente, conforme a advogada revelou à jornalista Juliana Dal Piva, “agradeceu o trabalho e a dedicação”.
Não parou por aí. Aquela defesa virou referência para outras que Luciana viria a assumir no ecossistema bolsonarista. Cláudio Castro, em 2024, foi um dos clientes adicionados ao portfólio. Em maio daquele ano, conforme também revelamos na coluna Lauro Jardim, o então governador adicionou Luciana ao seu rol de advogados às vésperas de um julgamento vital na Justiça Eleitoral.
Castro poderia ter respirado aliviado quando se reelegeu governador no primeiro turno em 2022, com quase 60% dos votos. Mas não só surgiram os dois inquéritos contra ele no STJ, em 2023, como um terceiro caso complicado emergiu no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio.
Tratava-se do rolo do Ceperj (sigla para Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos). Milhões de reais do órgão foram utilizados para turbinar, com cabos eleitorais, a campanha de Castro em 2022.
Enquanto as investigações que tramitavam no STJ podiam levar Castro à cadeia — o que ele tentava evitar com acenos a André Mendonça, o caso no TRE do Rio poderia cassar o mandato do governador. Como, de fato, quase aconteceu: em março deste ano de 2026, enquanto renunciava ao cargo, Castro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), justamente por causa do Ceperj. Até que isso acontecesse, o político passou os últimos quatro anos tentando desligar essa outra bomba-relógio.
Aliado de Flávio, Castro incluiu Luciana Pires na defesa, em meio à expectativa de seu grupo político de que ela pudesse ajudá-lo na interlocução com o desembargador Peterson Barroso Simão, relator do caso do Ceperj no TRE do Rio. À época, havia a expectativa entre nomes da política fluminense de que uma suposta proximidade entre Luciana e o magistrado fizesse diferença no voto dele sobre as ilegalidades imputadas a Castro: abuso de poder econômico e político para se reeleger.
A hipótese não se concretizou: num voto duríssimo, o desembargador Barroso Simão afirmou que Castro teria operado uma “canalização de fortunas” para continuar no poder e, por isso, deveria ser obrigado a deixá-lo. O julgamento só não abreviou o mandato dele ainda mais porque o voto do magistrado, em 2024, foi derrotado pelos pares: Castro só seria punido, de fato, dois anos mais tarde, pelo tribunal superior.
Mesmo tendo sido inserida na defesa de Castro às pressas, Luciana não se mostrou uma figura determinante para aquele caso em específico.
Pessoas ligadas à ela afirmam, inclusive, que ela não seria próxima ao desembargador Barroso Simão, como esperava o grupo de Castro.
Luciana, no entanto, mantém outras conexões valiosas no Judiciário, incluindo o ministro André Mendonça.
_PARLATÓRIO LUCRATIVO
“Não tenho a pretensão de ser uma esperança ou alguém diferente em algum sentido, com algum dom especial. Tenho apenas a expectativa de tentar fazer o certo pelos motivos certos. Esse é o papel de um bom juiz. Ministro não tem que ser estrela, tem que simplesmente assumir a responsabilidade e julgar.”
Essas foram as palavras que André Mendonça direcionou a mais de 600 participantes de um evento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, em março passado. Seis meses antes de ele se tornar justamente a “estrela” das eleições 2026.
O discurso foi direcionado a advogados, principalmente: eles participaram de “um dos eventos mais concorridos da história recente da seccional” (nas palavras da própria Ordem), chamado de “Os desafios da advocacia no século XXI”. Mendonça era um dos membros da mesa da solenidade, junto a outros oito profissionais do Direito, incluindo Luciana Pires, a ex-advogada de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro.
De acordo com uma publicação da OAB, Luciana foi a “responsável pela organização do evento”, que girou em torno da figura de Mendonça. Único ministro na ocasião, ele naturalmente aparece ao centro da mesa, rodeado por advogados e magistrados. Luciana é a vice-diretora de Assuntos Legislativos da OAB no Rio.
Aquele evento recente não foi, nem de longe, o primeiro a indicar a proximidade entre o ministro Mendonça e a advogada Luciana. A lista é ampla.
No fim de 2020, quando Luciana tentava derrubar o caso das “rachadinhas”, Mendonça, então ministro da Justiça do governo Bolsonaro, precisou se manifestar publicamente por causa da atuação dela.
A advogada afirmou numa entrevista à revista Época que havia debatido o caso com Alexandre Ramagem, então chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que estava na estrutura ministerial de Mendonça. Ele chegou à pasta substituindo Sergio Moro, que deixou Brasília após ser pressionado por Bolsonaro pai a proteger os filhos em investigações daquele tipo — além de Flávio, também houve suspeita de desvios de salários por parte de Carlos Bolsonaro.
À época, Mendonça declarou ser necessária “independência” nas apurações de uma interferência da Abin no caso das “rachadinhas”, em que atuava Luciana. Ele não demonstrou, segundo o noticiário da época, preocupação com a situação.
A linha do tempo prosseguiu, já com Mendonça no Supremo. Em agosto de 2023, por exemplo, a colunista Bela Megale, do Jornal O Globo, registrou a realização de um jantar para homenagear o ministro no Rio, em nome de uma entidade chamada Associação Brasileira de Juristas Conservadores (Abrajuc). Luciana foi descrita como “uma das organizadoras do jantar” — assim como aconteceu este ano, na OAB do Rio.
Em abril de 2025, Mendonça foi convidado pelo Grupo Lide (de João Doria) para debater, também em solo carioca, a importância da “governança corporativa”. O encontro num hotel de luxo em Copacabana incluía a presidente da OAB no estado, Ana Tereza Basilio. A mediação coube justamente a Luciana Pires, segundo noticiou o jornalista Cláudio Magnavita, no Correio da Manhã.
A proximidade resvalou também no Instituto Iter, instituição de ensino que Mendonça fundou em São Paulo, em 2023, já enquanto ministro do Supremo.
Por meio da instituição, Mendonça ministrava nos últimos anos um curso dedicado à “arte e ciência da oratória”. O pacote com quatro aulas presenciais, em maio de 2025, saía a R$22,5 mil, conforme revelamos à época na coluna Lauro Jardim, no Globo. Investimento para quem quer caprichar na oratória e, de quebra, buscar um ponto de contato com o ministro do STF — modelo similar ao de outros cursos.
As turmas de Mendonça eram desenhadas para reunir alunos em dois locais, de acordo com um material de divulgação a que tive acesso na época. Em SP, as sessões aconteciam na sede do Iter, no nobre Jardim Paulista, Zona Oeste da cidade. No Rio, marcava-se num hotel de luxo da Zona Sul. Luciana se insere nesse segundo contexto.
Em 2025, quando obtive o material em questão, soube que era Luciana quem estava convidando algumas pessoas para compor as turmas de Mendonça. Agora, ao voltar a apurar sobre a conexão dela com o ministro, outras duas pessoas repetiram o relato. Uma figura relevante da advocacia em Brasília, por exemplo, me disse também ter sido convidada pela advogada para fazer o curso de oratória do ministro. Outra, da advocacia carioca, afirmou que Luciana “ajudava a formar turmas de André no Rio”.
Com aquele valor praticado em 2025, “arte e ciência da oratória” renderiam a Mendonça quase R$1 milhão por rodada, considerados os pacotes com quatro aulas em cada uma das duas praças. Em SP, a previsão era de 20 alunos matriculados: R$450 mil por turma. No Rio, com 23 vagas, o rendimento seria de R$517,5 mil.
Palanque questionou Luciana Pires sobre a relação dela com o ministro Mendonça e o curso dele. Não houve resposta dedicada à publicação na newsletter. Interlocutores dela afirmaram que a própria advogada foi aluna de Mendonça e, a partir disso, teria indicado o curso do Iter a outros advogados.
Em meio à crise no Supremo, Mendonça anunciou, no último dia 3 de setembro, que deixaria o Iter junto com a mulher, Janey Nagliatti de Mendonça, que atuava como representante do instituto. O movimento aconteceu depois que levantamentos da Revista Fórum e da BBC Brasil indicaram os ganhos da entidade via contratações públicas. O valor gira entre R$10,7 milhões (no cálculo do repórter Leandro Prazeres, da BBC) e R$10,8 milhões (no de Plínio Teodor, da Fórum, um veículo à esquerda). O caso já vinha sendo acompanhado pelo repórter Weslley Galzo, do “Estadão”: no primeiro ano do Iter, ele mapeou R$4,8 milhões em contratos desse mesmo tipo.
Os negócios foram firmados com a promessa de que o Iter ofereceria cursos de capacitação a servidores de diferentes órgãos, como o Tribunal de Justiça do Amazonas; uma fundação educacional do Governo de São Paulo e as secretarias de Segurança Pública do Piauí e do Rio de Janeiro — já depois da saída de Castro.
A existência dos contratos, por si só, não implica em ilegalidade.
Mendonça afirmou publicamente que havia deixado sua cota no Iter sem contrapartida financeira, assim como a mulher. Dez dias depois, ele segue estampado no site da instituição (a seção “De onde nasce o ideal do Iter” inclui um vídeo antigo de Mendonça). Também há referência nas redes sociais: o ministro é o rosto da aba “Professores”, que destaca o corpo docente no Instagram.
_PONDERAÇÕES IMPORTANTES
André Mendonça mandou trancar os dois inquéritos contra Cláudio Castro em que a PF apurava desvios na assistência social do Rio. Foi em 10 de outubro de 2024.
O entendimento do ministro foi de que governador havia começado a ser investigado, inicialmente, em foro inadequado. Primeiro no Ministério Público do Rio e só depois na PGR, em Brasília. O argumento lembra o que livrou Flávio nas “rachadinhas”.
Apesar da semelhança entre os casos, Luciana Pires, a antiga advogada do senador, não chegou a defender Castro nesses casos relativos à Fundação Leão XIII, que poderiam levar o político à prisão.
Ante o Judiciário, oficialmente, a criminalista tratou do processo eleitoral ligado ao caso de compra de cabos eleitorais via Ceperj: aquele em que o desembargador Peterson Barroso Simão votou contra Castro, levando-o a quase perder o cargo de governador via TRE do Rio.
Mendonça também avaliou esse caso, já em março de 2026, enquanto a cúpula da Justiça Eleitoral julgava Castro pelo Ceperj e ele se apressava para renunciar à cadeira.
Um grupo de 25 advogados consta na defesa do ex-governador em dois processos analisados pelo TSE este ano, sobre o mesmo tema. Luciana Pires aparece como advogada de Castro em um deles. Interlocutores da criminalista afirmam que ela não atuou no tribunal superior: teria se restringido à primeira instância, no TRE do Rio.
Não é possível afirmar que a proximidade com Mendonça foi determinante para o desfecho de nenhum dos processos sobre Castro, com ou sem Luciana na defesa.
Pessoas que ainda são próximas ao ex-governador defendem o ministro Mendonça: dizem que ele é “diferenciado”, “temente a Deus” e, devido ao apego aos valores religiosos, seria correto e rígido na condução de seus processos.
Já quadros que romperam com Castro dizem o contrário: entendem que, lá atrás, ele teria trazido Luciana Pires para perto de si visando o processo eleitoral do qual ela participou, mas buscando também intensificar a própria conexão com Mendonça. Os dois, Mendonça e Castro, afinal, tinham uma linha direta via WhatsApp, conforme mostraram Constança Rezende e a “Folha”.
“Gravíssimos”: foi como Mendonça classificou os fatos ligados ao Ceperj, seis meses atrás, ao analisar no TSE recursos do Ministério Público contestando a absolvição de Castro no TRE do Rio (o primeiro julgamento em que Luciana atuou).
Apesar da gravidade, o ministro entendeu que Castro não merecia ser declarado inelegível pelo escândalo. Mendonça disse, sim, ser a favor da cassação do governador pelos abusos que elegeram a candidatura. Como o governador já havia renunciado, restou opinar pelo futuro político: a posição foi pela viabilidade.
A interpretação de Mendonça foi que as provas reunidas a respeito do tema não eram suficientes para responsabilizar Castro pelo Ceperj e, assim, torná-lo inelegível. Faltava comprovar a “responsabilidade indireta ou direta” do político. À época, embora já houvesse renunciado, ele tinha a pretensão de concorrer ao Senado.
Se tivesse prevalecido o voto de Mendonça (assim como o do ministro Kassio Nunes Marques), Castro poderia se candidatar sem quaisquer obstáculos judiciais.
No entanto, Mendonça e Nunes Marques foram votos vencidos por outros cinco ministros, incluindo a ministra Isabel Gallotti, relatora do caso. Para ela, o esquema no Ceperj não foi formado por “atos isolados ou improvisados”, mas sim por “uma estratégia implementada no âmbito do governo do Estado” — chefiado por Castro.
Foi só no caso do Master que Mendonça, enfim, impôs um revés a Castro. Em maio de 2026, o ex-governador foi alvo de uma operação de busca e apreensão autorizada pelo ministro. A cobertura em que Castro residia, na Barra da Tijuca foi vasculhada depois que o ministro assinou dez mandados de busca e apreensão para esse e outros endereços. Em julho, a PF quis realizar busca em outros locais potencialmente relacionados a Castro: o magistrado negou o pedido.
Quadros da PF vêm questionando a lentidão da atuação de Mendonça em relação a Castro, na contramão da rapidez com que ele decide sobre outros réus. Relatórios da corporação, sem assinatura, foram utilizados pelo ministro Alexandre de Moraes para tentar incluir Mendonça no Inquérito das Fake News — pouco antes de Edson Fachin, presidente do STF, resolver assumir a relatoria do caso.
Um dos documentos incluídos por Moraes, vindo da PF, compara: Mendonça demorou nove dias para tomar uma decisão sobre Jaques Wagner (senador pelo PT da Bahia, aliado de Lula e também envolvido com Vorcaro), enquanto gastou 75 dias para prestar atenção e despachar no caso envolvendo Castro. A diferença tem sido tratada por investigadores (e críticos de Mendonça) como um sinal de seletividade.
A mesma lentidão, aliás, aparece em outro caso envolvendo o bolsonarismo. Com o fim do sigilo sobre os processos do Master, ficou evidente que Mendonça havia prosseguido muito pouco nas ordens para investigar “Dark Horse” (filme sobre Jair Bolsonaro que foi financiado pelo banco e por Vorcaro).
Questionado pela jornalista Constança Rezende e pela “Folha” sobre as mensagens trocadas com Castro (a respeito de Sérgio Cabral), Mendonça negou a amizade com o ex-governador. Recordou seu posicionamento — parcialmente — desfavorável ao político no TSE, no caso Ceperj, e disse que se limitou a atuar com base nos autos.
_PONTEIRO
Ajuste o seu e não perca o timing eleitoral
_Faltam 20 dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
_O plenário do STF se reúne nesta terça-feira, 15 de setembro, às 10h, com transmissão ao vivo via rádio e TV Justiça, além do YouTube. É a sessão mais aguardada da Corte em muito tempo: os ministros devem discutir, em conjunto, se Alexandre de Moraes será ou não investigado pela relação com Daniel Vorcaro.
_A partir de sábado, 19 de setembro, candidatos e candidatas que concorrem este ano não podem mais ser presos. A exceção é para aqueles flagrados cometendo crimes. A medida tenta evitar prisões com finalidades eleitoreiras e prejuízos ao pleito.
_PRATELEIRA
Tire daqui mais conteúdos interessantes
_Em 2 de setembro, a coluna Lauro Jardim no Jornal O Globo, citada algumas vezes nesta edição, ajudou indiretamente com o start para a organização dessas memórias e novas apurações sobre André Mendonça e Cláudio Castro. Na nota “A PF e o troco em André Mendonça”, Jardim revelou uma fala de um delegado em posto de comando da PF sobre o “troco” da corporação ao ministro, envolvendo o ex-governador. O movimento surgiu depois que Mendonça passou a agir em rota de colisão com Andrei Rodrigues, diretor-geral que acabou afastado (e devolvido) ao cargo, semana passada.
_Bernardo Mello Franco, também colunista do Globo, publicou no fim de agosto um texto intitulado “André Mendonça será o novo Sergio Moro?”, cuja leitura recomendo. Num dos trechos, ele afirma, em relação aos vazamentos recentes no STF: “Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos”.
_Fábio Porchat, dos meus humoristas favoritos, gravou um vídeo imperdível em que interpreta um jornalista tentando sobreviver à enxurrada de notícias do momento. Assista aqui. Para além dos risos, o texto causa identificação tremenda: esta edição de Palanque, como tudo o que o jornalismo produz desde a virada de setembro e a crise no Supremo, precisou ser alterada inúmeras vezes para não ficar desatualizada.
_PALANQUE é uma newsletter dedicada às eleições de 2026, assinada pelo repórter independente João Paulo Saconi (autor de ‘Vocês da Imprensa’) e editada pela jornalista Julia Moreira de Fraga, que também assina a newsletter de curadoria The Cool Hunch. O conteúdo também está em posts no Instagram e no TikTok.










